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Nigon Wyrta Galdor - O Encantamento das Nove Ervas

 

Nigon Wyrta Galdor - O Encantamento das Nove Ervas

Confesso que fui pego de surpresa ao assistir Hamnet. Além de ser um excelente filme (reconhecido internacionalmente e vencedor do Oscar), ele apresentou algo que eu certamente não esperava encontrar em uma produção cinematográfica contemporânea: o Nigon Wyrta Galdor (Encantamento das Nove Ervas) sendo recitado, em diferentes momentos, de forma notavelmente fiel ao texto preservado em inglês antigo.

Para mim, essa descoberta teve um significado especial. Como praticante da religião heathen e pesquisador da religiosidade dos povos germânicos, ver um dos mais importantes encantamentos da tradição anglo-saxã tratado com tanto cuidado tornou a experiência do filme ainda mais marcante. Mais do que um recurso estético, o encantamento aparece integrado à narrativa como parte de uma visão de mundo em que cura, natureza, palavra e espiritualidade permanecem profundamente conectadas.

Foi justamente essa experiência que despertou o desejo de produzir uma tradução para o português. Considerando a importância inestimável do Nigon Wyrta Galdor para o estudo do paganismo germânico e da religiosidade anglo-saxã, optei por realizar uma tradução diretamente do texto em inglês antigo, buscando preservar sua linguagem poética, sua estrutura ritual e seus conceitos originais. Ao mesmo tempo, procurei adotar o mesmo compromisso que orienta todos os trabalhos do Germania Institut: combinar rigor acadêmico, fundamentação filológica e respeito pela tradição religiosa germânica, evitando tanto simplificações excessivas quanto releituras modernas que descaracterizem o texto histórico.

Mas antes da tradução precisamos entender o que é o Nigon Wyrta Galdor, qual é o contexto histórico que esse texto está inserido e sua importância para a religiosidade pagã germânica.


História e Contexto


O Encantamento das Nove Ervas (Nigon Wyrta Galdor, em inglês antigo) é um dos mais importantes textos mágico-medicinais preservados da Inglaterra anglo-saxã. Sua versão conhecida atualmente encontra-se no manuscrito chamado Lacnunga (“Remédios” ou “Coleção de Curas”), compilado provavelmente no final do século X ou início do XI. O manuscrito hoje integra a coleção da British Library, em Londres, sob a referência Harley MS 585.

Apesar da data relativamente tardia do manuscrito, há forte consenso acadêmico de que muitos dos materiais nele preservados são significativamente mais antigos. O Nine Herbs Charm em especial apresenta características linguísticas, poéticas e religiosas que sugerem a sobrevivência de tradições pré-cristãs muito anteriores à redação do códice.

O texto ocupa uma posição singular dentro da literatura anglo-saxã porque combina diferentes camadas culturais:

  • medicina herbal;

  • magia verbal;

  • tradição poética germânica;

  • religiosidade pagã;

  • e elementos cristãos posteriores.

Essa convivência entre cosmologias distintas não era incomum na Inglaterra anglo-saxã. Mesmo após a conversão oficial dos reinos ingleses ao cristianismo, práticas populares de cura, encantamentos e crenças herdadas do passado germânico continuaram existindo por séculos, muitas vezes reinterpretadas dentro de uma nova moldura cristã.

É justamente por isso que o encantamento menciona simultaneamente figuras como Cristo e Wōden. Em vez de enxergar isso como “contradição”, muitos historiadores entendem o texto como evidência do sincretismo religioso característico do período. A cristianização da Inglaterra não apagou imediatamente as antigas tradições cosmológicas germânicas; ao contrário, durante muito tempo houve coexistência, adaptação e reinterpretação.

Outro aspecto importante é compreender que o Encantamento das Nove Ervas não era simplesmente um “poema” no sentido literário moderno. Trata-se de um texto performático e ritualístico. Seu objetivo não era apenas ser lido, mas pronunciado em contexto terapêutico. O encantamento provavelmente acompanhava:

  • preparação de remédios herbais;

  • aplicação medicinal;

  • rituais de cura;

  • bênçãos;

  • e práticas apotropaicas contra doenças e venenos.

Na cultura anglo-saxã, as palavras possuíam eficácia própria. O ato de nomear, recitar e repetir fazia parte do processo de cura tanto quanto as propriedades físicas das ervas utilizadas. Isso ajuda a explicar a forte presença de:

  • repetições;

  • fórmulas paralelas;

  • enumerações;

  • e invocações diretas às plantas.

As próprias ervas são tratadas quase como agentes conscientes, possuidoras de poder intrínseco e capacidade ativa de combate contra venenos, enfermidades e forças hostis.

Além disso, o texto preserva importantes traços da antiga cosmologia germânica. Um dos exemplos mais marcantes é a referência a Wōden utilizando “nove galhos gloriosos” para derrotar a serpente venenosa. O número nove aparece repetidamente em tradições germânicas e nórdicas posteriores, geralmente associado a:

  • poder ritual;

  • transformação;

  • sacrifício;

  • conhecimento oculto;

  • e estruturação cosmológica.

Da mesma forma, a ideia de ervas como entidades dotadas de potência espiritual encontra paralelos em diversas tradições indo-europeias antigas.

Do ponto de vista linguístico, o encantamento também é extremamente valioso. O texto preserva estruturas poéticas típicas da tradição oral germânica, incluindo:

  • aliterações;

  • paralelismos;

  • fórmulas repetitivas;

  • e ritmo encantatório.

Muitos termos presentes no poema continuam sendo debatidos entre filólogos e historiadores da medicina medieval, especialmente os nomes de certas ervas cuja identificação botânica permanece incerta. Em vários casos, talvez esses nomes fossem menos “científicos” do que funcionais ou simbólicos, indicando propriedades mágicas, usos rituais ou associações cosmológicas das plantas.

Por isso, reduzir o Encantamento das Nove Ervas a um simples catálogo de plantas medicinais seria insuficiente. O texto pertence a um universo cultural em que:

  • medicina e magia não estavam separadas;

  • cura física e proteção espiritual eram inseparáveis;

  • e linguagem ritual possuía poder concreto sobre o mundo.

Mais do que um documento de medicina popular, o encantamento constitui uma rara sobrevivência da religiosidade cotidiana dos povos germânicos da Inglaterra anglo-saxã — um mundo em que ervas, palavras, deuses, doença e destino ainda estavam profundamente interligados.

O Encantamento das Nove Ervas

Tradução do inglês antigo, a partir do manuscrito Lacnunga (Harley MS 585, séculos IX–X), por André Schürhaus Hyeda do Germania Institut


Nota do tradutor: esta versão foi feita diretamente do texto normalizado em inglês antigo, em forma de verso, e não da prosa contínua mais comum nas traduções de divulgação. Mantive a ambiguidade entre o pagão e o cristão que já existe no manuscrito original, fruto de uma transmissão feita por escribas cristãos de um material claramente mais antigo — em vez de apagá-la. O leitor notará que a camada dominante do encantamento é inequivocamente pagã: o animismo dirigido às próprias ervas (tratadas como guerreiras com memória e vontade), a obsessão numerológica pelo três e pelo nove, o papel de Wóden como curandeiro guerreiro, e a visão final, quase xamânica, do rio vigiado por nove serpentes. As referências cristãs aparecem como uma camada posterior, sobreposta a essa estrutura e é assim que as preservo.

As ervas marcadas com asterisco (*) na lista de ingredientes, e os nomes em itálico ao longo do poema, possuem identificação botânica incerta ou debatida; ver notas ao final. Outras curiosidades, palavras que são hapax legomenon ou decisões importantes que divergem de outras traduções também estão marcadas com asterisco (*).


Lembra-te, Artemísia, o que proclamaste,
o que decretaste em Regenmeld*.
Una és chamada, a mais antiga das ervas;
Tu tens poder contra o três e contra o trinta,
Tu tens poder contra a peçonha, e contra aquilo que vem voando*;
Tu tens poder contra o Hostil* que percorre toda a terra.

E tu, Tanchagem, mãe das ervas,
aberta a leste, poderosa em teu íntimo.
Sobre ti passaram os carros, sobre ti cavalgaram as rainhas*,
sobre ti clamaram as noivas, sobre ti bufaram os touros.

A tudo isso opuseste resistência e firme permaneceste.
Assim, opõe-te à peçonha e àquilo que vem voando,
e ao Hostil que percorre toda a terra.

Stune* chama-se esta erva; sobre a pedra ela cresceu.
Ela se ergue contra o veneno; ela faz cessar a dor.
Stiðe* ela se chama; firme resiste à peçonha.
Ela afasta o mal; lança para fora a peçonha.

Esta é a erva que combateu a serpente*.
Esta tem poder contra a peçonha;
ela tem poder contra aquilo que vem voando;
ela tem poder contra o Hostil que percorre toda a terra.

Tu, Attorlāðe*, foge agora;
o menor diante do maior,
o maior diante do menor,
até que para ambos haja remédio.

Recorda, Camomila,
o que proclamaste,
o que levaste a cabo em Alorforda*;
que jamais se entregasse o sopro vital àquilo que voa,
desde que Mægðe foi preparada como alimento para ele.

Esta é a erva que se chama Wergulu*.
A foca a enviou sobre o dorso do mar
como remédio contra outra peçonha.

Estas nove têm poder contra nove peçonhas.

A serpente veio rastejando; não matou ninguém*.
Então Wōden* tomou nove ramos gloriosos
e golpeou a serpente, de modo que ela se despedaçou em nove partes.
Ali, a maçã pôs fim à peçonha
para que nunca mais habitasse numa casa.

Camomila e funcho, duas de grande poder;
essas ervas criou o sábio Senhor*,
santo nos céus, quando pendia;
estabeleceu-as e enviou-as aos sete mundos*
como remédio para todos, pobres e ricos.

Ela se ergue contra a dor; faz cessar a peçonha.
Ela tem poder contra o três e contra o trinta;
contra a mão do inimigo e contra o golpe do senhor*;
contra o malefício dos seres hostis*.

Agora estas nove ervas têm poder contra nove poderes voadores*;
contra nove peçonhas e contra nove coisas que vêm voando*;
contra a peçonha vermelha, contra a peçonha corrente;
contra a peçonha branca, contra a peçonha azulada;
contra a peçonha amarela, contra a peçonha verde;
contra a peçonha sombria, contra a peçonha furiosa;
contra a peçonha parda, contra a peçonha violácea;
contra bolha-de-serpente, contra bolha-d'água;
contra bolha-de-espinho, contra bolha-de-cardo;
contra bolha-de-gelo, contra bolha-de-peçonha.

Se alguma peçonha vier voando do leste,
ou vier do norte,
ou vier do oeste sobre o povo dos homens

Cristo permaneceu acima de toda enfermidade de qualquer espécie.
Somente eu conheço o rio corrente
onde as nove serpentes vigiam.

Que toda a vegetação agora brote em ervas;
que o mar se abra, toda a água salgada,
quando eu soprar* para fora de ti esta peçonha.



A preparação do unguento

Artemísia, Tanchagem voltada para o leste, Agrião, Attorlāðan*, Mægðe, Urtiga, Maçã-do-bosque, Camomila e Funcho, e sabão antigo. Triture as ervas até reduzi-las a pó; misture-as com o sabão e com o suco da maçã.

Prepare uma pasta com água e cinzas; adicione o funcho, ferva-o nessa pasta e, em seguida, misture com ovo. Banhe a área afetada com essa preparação antes e depois de aplicar a pomada.

Entoe este galdor* sobre cada uma das ervas três vezes antes de prepará-las, e também sobre a maçã. Depois, cante o mesmo encantamento na boca do paciente, em ambas as orelhas e sobre a ferida, antes de aplicar a pomada.



Notas

  1. Regenmeld — Topônimo atestado apenas aqui; local e significado desconhecidos.

  2. "aquilo que vem voando" (onflyge) — Termo nativo para uma doença ou contágio concebido como algo que chega pelo ar; preferi manter a imagem de algo "que voa" a traduzir simplesmente por "infecção". Isso foi mantido durante todo o texto.

  3. Hostil (lāð) — Essa palavra possui campo semântico amplo (doença, maligno, demônio, diabo, feitiço nocivo e outros) podendo designar qualquer agente hostil. No texto também aparece a sua forma dativa singular laþan, fato que justifica ainda mais a escolha pela palavra hostil. Outra observação importante é que hostil está com H maiúsculo não porque seja um nome próprio, mas porque o poema parece tratar Lāð quase como uma categoria cosmológica — algo comum na literatura germânica.

  4. Rainhas (cwene / cwēn) — As duas palavras têm a mesma origem e são cognatas e em muitos manuscritos a distinção entre cwene e cwēn depende de marcações de vogal longa que frequentemente não aparecem no manuscrito. No Harley MS 585, como em boa parte dos textos em inglês antigo, os escribas raramente marcavam a quantidade vocálica. Entendi que a tradução para rainhas faz mais sentido dentro do contexto do verso.

  5. Stune — Palavra que ocorre uma única vez em todo o corpus do inglês antigo (hapax legomenon); identificação botânica desconhecida. Pelo contexto ("cresceu sobre a pedra"), é tentador pensar numa planta rupestre, mas isso é especulação.

  6. Stiðe — Também um hapax legomenon. Na lista de ingredientes em prosa, ao final do encantamento, o lugar correspondente a Stune/Stiðe é ocupado por "urtiga" (netelan) e por "agrião-do-cordeiro" (lombescyrse) — o que sugere, mas não confirma, alguma equivalência.

  7. Serpente (ƿyrm) — O inglês antigo wyrm possui um campo semântico amplo: serpente; víbora; verme; dragão (em contextos heroicos); criatura serpentiforme. Neste poema, mais adiante aparece næddran, que é especificamente "víbora" ou "cobra". Isso sugere que wyrm foi empregado num sentido mais amplo. Minha preferência por “serpente” diz respeito ao fato de que os dragões na literatura medieval germânica eram mais parecidos com serpentes (não voavam e rastejavam) do que com os dragões da fantasia medieval. 

  8. Attorlaðe — Literalmente "a que odeia o veneno" (āttor, "veneno" + lāð, "odioso"); é antes um epíteto funcional do que um nome botânico fixo, daí a incerteza sobre a planta real.

  9. Vau do Amieiro (Alorford) — Topônimo atestado apenas aqui, à semelhança de Regenmeld, portanto outro topônimo atestado apenas aqui

  10. Wergulu — Outro hapax legomenon. Na lista de ingredientes em prosa, a posição equivalente é ocupada pela "maçã-brava do bosque" (wudusūræppel), o que leva muitos a supor que Wergulu seja um nome poético para a macieira silvestre, mas, como os demais, isso permanece incerto.

  11. “não matou ninguém” (toslat he nan) — Não existe um consenso entre os filólogos aqui principalmente com a palavra nan. Se está for nān ("ninguém") então a tradução correta é “não matou ninguém”.

  12. Wóden — Forma em inglês antigo do mesmo deus germânico conhecido nas fontes nórdicas como Óðinn (Odin). Este encantamento é um dos raros textos em inglês antigo a mencioná-lo fora de genealogias reais, e o faz exatamente como a tradição nórdica também o conhece: como líder guerreiro e como curandeiro.

  13. Senhor (drihten) — O original chama essa figura apenas de "o Senhor" (drihten), "suspenso" nos céus, sem nomeá-la. É uma ambiguidade quase certamente deliberada do compilador cristão do encantamento: a imagem encaixa tanto em Cristo na cruz quanto em Wóden suspenso na árvore por nove noites para obter o conhecimento das runas. Optei por preservar essa mesma ambiguidade, em vez de resolvê-la.

  14. "sete mundos" (seofon worulde) — Estranheza do texto: num poema obcecado pelos múltiplos de três e, sobretudo, pelo número nove, esta é a única ocorrência do número sete. Há quem suspeite de uma corrupção textual de uma referência original aos "nove mundos" da cosmologia nórdica. Essa questão não é de grande mistério para quem estuda a cosmologia germânica (e não fica restrito apenas a nórdica), já que originalmente os povos germânicos acreditavam de fato em “sete mundos”. Temos um artigo sobre essa questão no blog do Germania Institut.

  15. Senhor (frea) — Diferente de drihten, frea significa lorde, mestre, governante. Claro quem é o senhor que o poema se refere.

  16. “contra o malefício dos seres hostis” (malscrunge manra wihta) — A expressão malscrunge manra wihta é uma das passagens mais obscuras de todo o Nine Herbs Charm. O termo malscrunge constitui um hapax legomenon, ocorrendo apenas uma vez em todo o corpus do inglês antigo, o que impede a determinação precisa de seu significado e explica traduções variadas como "feitiçaria", "dano mágico", "encantamento nocivo" ou "malefício". Da mesma forma, wihta possui um amplo campo semântico, podendo designar seres, criaturas ou espíritos, enquanto a leitura de manra permanece debatida. Diante dessas incertezas, optou-se pela tradução "contra o malefício dos seres hostis", inspirada principalmente na interpretação de Godfrid Storms (Anglo-Saxon Magic, 1948), por preservar a amplitude semântica do original sem restringi-lo a uma forma específica de feitiçaria ou a uma categoria particular de entidades sobrenaturais, mantendo, assim, a ambiguidade característica do encantamento. 

  17. "poderes voadores" (ƿuldorgeflogenum) — Termo obscuro sem paralelo seguro; O problema está em wuldor que significa algo como glória, esplendor, sagrado. No contexto do poema fica clara a interpretação de que se trataria de espíritos ou entidades nocivas e voadoras.

  18. O poema enumera dez cores de veneno, embora anuncie "nove males". A inconsistência é conhecida dos estudiosos: o manuscrito é, por unanimidade, considerado bastante corrompido, com prováveis repetições e lacunas de transmissão.

  19. Soprar (geblāwan)  — Existem traduções que entendem geblāwan como curar, pois essa é a ideia central do último verso. Entretanto sopro é um ato ritual concreto. Em diversos encantamentos anglo-saxões, a palavra pronunciada é acompanhada por ações físicas — soprar, tocar, traçar sinais ou aplicar as ervas. Assim, geblāwan não descreve apenas a retirada da peçonha, mas o gesto performativo pelo qual o oficiante torna eficaz o encantamento. 

  20. Attorlāðan Attorlāðan aparece aqui como o nome de uma das ervas, o que reforça a interpretação de que, no encantamento, Attorlāðe pode ter funcionado originalmente como um nome ritual ou botânico, e não necessariamente como uma expressão descritiva ("hostil à peçonha" ou "portador da peçonha"). .

  21. Galdor Galdor (inglês antigo; cognato do nórdico antigo galdr) designa uma fórmula ritual vocalizada, cuja eficácia dependia da correta recitação. Embora frequentemente traduzido por "encantamento", o termo possui um significado técnico mais específico dentro das tradições germânicas, razão pela qual foi mantido sem tradução nesta edição.

Fontes primárias

  • British Library. Harley MS 585 (Lacnunga). Londres: British Library, séc. X/XI.

    Manuscrito que preserva o Nine Herbs Charm. A tradução foi baseada na leitura do manuscrito (com indicação das reconstruções editoriais entre colchetes), evitando normalizações desnecessárias.

Edições críticas

  • Cockayne, Thomas Oswald. Leechdoms, Wortcunning and Starcraft of Early England. 3 vols. London: Longman, Green, Longman, Roberts & Green, 1864–1866.

  • Grattan, J. H. G.; Singer, Charles (eds.). Anglo-Saxon Magic and Medicine. Oxford: Oxford University Press, 1952.

  • Pettit, Edward (ed.). Anglo-Saxon Remedies, Charms, and Prayers from British Library MS Harley 585. 2 vols. Lewiston: Edwin Mellen Press, 2001.

A edição de Pettit foi particularmente importante para a identificação das leituras manuscritas, variantes textuais e aparato crítico.

Estudos especializados

  • Storms, Godfrid. Anglo-Saxon Magic. The Hague: Martinus Nijhoff, 1948.

Principal referência interpretativa utilizada nesta tradução. Diversas decisões sobre termos obscuros (malscrunge, wuldorgeflogenum, onflyge, entre outros) dialogam diretamente com Storms, ainda que nem todas as suas conclusões tenham sido adotadas integralmente.

  • Pollington, Stephen. Leechcraft: Early English Charms, Plant-Lore and Healing. Hockwold-cum-Wilton: Anglo-Saxon Books, 2000.

Utilizado sobretudo para contextualização da medicina anglo-saxã, identificação botânica das ervas e prática ritual.

Dicionários e ferramentas filológicas

  • Bosworth, Joseph; Toller, T. Northcote. An Anglo-Saxon Dictionary. Oxford: Oxford University Press, 1898. (e suplementos posteriores)

  • Dictionary of Old English (DOE). Toronto: Centre for Medieval Studies, University of Toronto.

  • Clark Hall, John R. A Concise Anglo-Saxon Dictionary. 4ª ed. Cambridge: Cambridge University Press, 1960.

Esses dicionários foram fundamentais para a análise lexical, especialmente nos casos em que optamos por manter termos não traduzidos (Attorlāðe, galdor, wyrm, etc.) ou por evitar interpretações excessivamente específicas.

As Nove Ervas

Ao longo do Nine Herbs Charm, são mencionadas nove ervas, que dão nome ao encantamento, além de outros ingredientes utilizados na preparação da pomada. Algumas identificações botânicas são consensuais, enquanto outras permanecem debatidas. Abaixo segue a lista mantendo o nome em Old English e, quando possível, o correspondente em português.

Old English

Tradução adotada

Identificação botânica

Grau de certeza

Mucgwyrt

Artemísia

Artemisia vulgaris

Muito alta

Wegbrade

Tanchagem

Plantago major (ou espécies próximas)

Muito alta

Stune

Stune (mantido sem tradução)

Incerta (já foi associada a diversas espécies, como Lycopus europaeus e Centaurea nigra)

Muito baixa

Stiðe

Stiðe (mantido sem tradução)

Incerta

Muito baixa

Attorlāðe

Attorlāðe (mantido sem tradução)

Incerta

Muito baixa

Mægðe

Mægðe (mantido sem tradução)

Geralmente associada à camomila-brava (Anthemis spp.), mas controversa

Baixa

Wergulu

Wergulu (mantido sem tradução)

Frequentemente identificada com Verbasco (Verbascum thapsus), mas sem consenso absoluto

Moderada

Fille

Camomila

Provavelmente Matricaria chamomilla ou espécie próxima

Alta

Finule

Funcho

Foeniculum vulgare

Muito alta

Attorlāðe e Mægðe merecem uma observação especial. Diferentemente de Artemísia, Tanchagem, Urtiga ou Funcho, suas identificações permanecem objeto de debate há mais de um século. Embora diversos autores proponham equivalentes botânicos, nenhum deles alcançou consenso na literatura especializada. Por essa razão, nesta tradução optou-se por preservar seus nomes em inglês antigo, evitando associá-los a uma espécie moderna sem respaldo filológico suficiente.

Após o poema, a receita inclui:

  • Lombescyrse (Agrião)

  • Netele (Urtiga)

  • Wudusuræppel (Maçã-do-bosque)

Esses não pertencem às "Nove Ervas" propriamente ditas. Eles são ingredientes adicionais da preparação medicinal descrita no Lacnunga. Ou seja, o compilador preservou o encantamento tradicional das nove ervas, mas a receita que o acompanha incorpora outras plantas e substâncias para a confecção da pomada.

Texto Original em Old English

A quem possa interessar, segue a versão original em Old English que foi utilizada para a tradução.

Gemyne ðu mucgƿyrt
hƿæt þu ameldodest
hƿæt þu renadest æt Regenmelde

Una þu hattest yldost ƿyrta
þu miht ƿið * III * & ƿið XXX *
þu miht ƿiþ attre & ƿið onflyge
þu miht ƿiþ þa[m] laþan ðe geond lond færð

+ Ond þu ƿegbrade ƿyrta modor
east[a]n op[e]ne inn[a]n mihtigu
ofer ðy cræte curran ofer ðy cƿene reodan
ofer ðy bryde bryodedon ofer ðy fearras fnærdon.

Eallum þu þon ƿiðstode and ƿiðstunedest
swa ðu ƿiðstonde attre and onflyge
and þæm laðan þe geond lond fereð :

Stune hætte þeos ƿyrt, heo on stane geƿeox *
stond heo ƿið attre, stunað heo ƿærce
Stiðe heo hatte, ƿiðstunað heo attre
ƿreceð heo ƿraðan, ƿeorpeð ut attor

+ Þis is seo ƿyrt seo ƿiþ ƿyrm gefeaht
þeos mæg ƿið attre, heo mæg ƿið onflyge
heo mæg ƿið ða[m] laþan ðe geond lond fereþ

Fleoh þu nu attorlaðe, seo læsse ða maran
seo mare þa læssan, oððæt him beigra bot sy

Gemyne þu, mægðe,
hƿæt þu ameldodest
hƿæt ðu geændadest æt Alorforda
þæt næfre for gefloge feorh ne gesealde
syþðan him mon mægðan to mete gegyrede

Þis is seo ƿyrt ðe wergulu hatte
ðas onsænde seolh ofer sæs hrygc
ondan attres oþres to bote

Ðas VIIII [m]agon ƿið nygon attrum.

+ Ƿyrm com snican, toslat he nan
ða genam Ƿoden * VIIII * ƿuldortanas
sloh ða þa næddran þæt heo on VIIII * tofleah
Þær geændade æppel and attor
þæt heo næfre ne ƿolde on hus bugan

+ Fille and finule, felamihtigu twa
þa ƿyrte gesceop ƿitig drihten
halig on heofonum, þa he hongode
sette and sænde on VII ƿorulde
earmum and eadigum eallum to bote

Stond heo ƿið ƿærce, stunað heo ƿið attre
seo mæg ƿið * III & wið XXX
ƿið [feondes] hond and ƿið frea b[r]egde
ƿið malscrunge m[a]nra wihta

+ Nu magon þas * VIIII * ƿyrta ƿið nygon ƿuldorgeflogenum
ƿið VIIII attrum and ƿið nygon onflygnum
ƿið ðy readan attre, ƿið ð[y] runlan attre
ƿið ðy hƿitan attre, ƿið ðy [hæƿe]nan attre
ƿið ðy geolwan attre, ƿið ðy grenan attre
ƿið ðy ƿonnan attre, ƿið ðy ƿedenan attre
ƿið ðy brunan attre, ƿið ðy baseƿan attre
ƿið ƿyrmgeblæd, ƿið ƿætergeblæd
ƿið þorngeblæd, ƿið þystelgeblæd
ƿið ysgeblæd, ƿið attorgeblæd

Gif ænig attor cume eastan fleogan
oððe ænig norðan cume
oððe ænig westan ofer ƿerðeode

+ Crist stod ofer a[dl]e ængan cundes
Ic ana ƿat ea rinnende
þær þa nygon nædran behealdað

Motan ealle weoda nu ƿyrtum aspringan
sæs toslupan, eal sealt ƿæter
ðonne ic þis attor of ðe geblaƿe

Mucgƿyrt, ƿegbrade þe eastan open sy, lombescyrse, attorlaðan, mageðan, netelan, ƿudusuræppel, fille & finul, ealde sapan. Geƿyrc ða ƿyrta to duste, mængc ƿiþ þa sapan and ƿiþ þæs æpples gor.

Ƿyrc slypan of ƿætere and of axsan, genim finol, ƿyl on þære slyppan and beþe mid æggemongc, þonne he þa sealfe on do, ge ær ge æfter.

* Sing þæt galdor on æcre þara ƿyrta, :III: ær he hy ƿyrce and on þone æppel ealsƿa; ond singe þon men in þone muð and in þa earan buta and on ða ƿunde þæt ilce gealdor, ær he þa sealfe on do :.



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Tradução e adaptação do texto de Robert Saas pelo professor Leonardo Hermes: https://www.aldsidu.com/post/how-to-do-solitary-ritual   Uma das maiores dificuldades daqueles que buscam seguir as tradições dos germânicos antigos é como proceder com algum ritual para honrar os deuses ou antepassados. Com isto em mente estamos trazendo um guia de como fazer um Blot solitário.  Trouxemos o passo-a-passo para que você possa fazer um ritual historicamente fidedigno e com significado.  Muitos grupos, principalmente na Europa e nos Estados Unidos, utilizam sangue nos seus Blots, já que esta é a origem da palavra “blood”, sangue em inglês. Contudo, entendemos que isto pode ser chocante ou um tabu muito grande para a maioria das pessoas. Lembre-se que quando se utiliza sangue, normalmente o animal é abatido e depois assado. Qualquer um que goste de churrasco e tenha ressalvas em utilizar sangue em um Blot precisa rever a sua visão do que é um Blot.  Contudo, sangue não é a única...

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A maioria dos pagãos modernos que seguem o caminho Germânico, seguem o modelo Nórdico. Existem pessoas — incluindo-nos — que, todavia, seguem o modelo Continental, e outros ainda, que seguem o Anglo-Saxão. Quais são as diferenças entre os três panteões? O quanto as fontes arqueológicas e escritas diferem umas das outras? E por que alguns decidem seguir o caminho continental? O caminho Nórdico é fortemente baseado na cultura escandinava do início da idade média, comumente chamada de Era Viking. A razão pela qual a maioria dos pagãos modernos seguem esse caminho é óbvia: fontes históricas em abundância, sejam elas arqueológicas ou escritas. As eddas clássicas são deste período, assim como as histórias sobre as vidas dos deuses, a arte e claro, a figura popular do viking. Escandinávia da Era VIking Não é difícil de entender o porquê de tantas pessoas irem até a religião escandinava medieval, já que ela é muito mais acessível para estudar. Há ainda uma razão um pouco controversa de que al...