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A Demonização dos Deuses Germânicos e Nórdicos

 A Demonização dos Deuses Germânicos e Nórdicos

Do Ódio Cristão à Reconstrução Ancestral


A prática cristã de demonizar deuses de outras religiões é bastante conhecida. Esta prática pode ser contemplada, inclusive, na própria bíblia onde deuses como Baal, que foi transformado em um demônio chamado Beelzebu (2 Reis 1:2-3; Mt 12:24), Asherah, reduzida a Astaroth (1 Reis 18:19; grimórios medievais), Moloch, retratado como abominação infernal (Lv 18:21; At 7:43), e os deuses das nações em geral, declarados explicitamente "demônios" (Salmos 96:5). Essa ação é tão poderosa que o grande público conhece esses nomes apenas como demônios e não como deuses de outras religiões.

Mas será que isso também aconteceu com a religião pagã germânica e nórdica? Vamos explorar profundamente este tema consultando fontes cristãs medievais européias, como o Old Saxon Baptismal Vow e as Vitae Columbani et Galli. Vamos entender também o porque, ao contrário de deuses como Baal, os deuses pagãos germânicos e nórdicos não são conhecidos nos dias atuais como demônios apesar dos esforços cristãos para isto.

Vamos explorar também como estas tentativas de demonização acabam sendo benéficas nos dias de hoje. Ao invés de atingir o objetivo principal de difamação da religião, hoje elas servem como fontes primárias valiosas para pesquisadores e praticantes reconstrucionistas da religião germânica, como o Germania Institut, permitindo compreender aspectos essenciais dos deuses, rituais e cosmovisão dos povos que os veneravam.


Estratégias da Demonização Cristã

No Oriente Médio antigo, a demonização sistemática de divindades rivais foi uma ferramenta essencial para consolidar o monoteísmo israelita. Deuses como Baal, soberano cananeu das tempestades e fertilidade, foram reduzidos a Belzebu ("senhor das moscas"), um demônio impuro associado a possessões e pragas (2 Reis 1:2-3; Mt 12:24). Moloque, divindade fenícia e púnica ligada a sacrifícios no fogo, aparece como abominação infernal que exigia a destruição total de seus altares (Lv 18:21; At 7:43). Asherah, consorte de El e Javé em alguns contextos pré-exílicos, degringola para Astaroth, príncipe demoníaco dos grimórios medievais (1 Reis 18:19). Essa recodificação não era mera retórica: criava um śāṭān (adversário hebraico, originalmente um título angelical, não um nome próprio), polarizando o cosmos em Javé versus forças caóticas, como argumentam estudiosos como John Day em An Adversary in Heaven: Śāṭān in the Hebrew Bible (2015) e Mark S. Smith em The Origins of Biblical Monotheism (2001). A estratégia impunha a visão excludente de Israel, onde dii gentium eram literalmente "demônios" (Sl 96:5), justificando guerras santas e proibições culturais.​

Na Europa medieval, essa tática evoluiu para a cristianização em massa, primeiro sob o Império Romano tardio (séculos IV-V), depois pelos francos carolíngios, especialmente Carlos Magno durante as Guerras Saxãs (772-804 d.C.). Sacerdotes e missionários não negavam a existência de Woden, Thunaer ou Seaxnot: ao contrário, reconheciam-nos como daemonia reais (ecoando Salmos 96:5 na Vulgata), potências espirituais malignas que exigiam exorcismo e renúncia explícita. No Old Saxon Baptismal Vow, o catecúmeno deve jurar: "Ec forsacho allum dioboles uuercum... Thunaer ende Uoden ende Saxnote ende allum them unholdum" ("Renuncio às obras do diabo, Thunaer, Woden, Seaxnot e todos os iníquos que os seguem"). Estratégias incluíam destruição física de ídolos (Vita Galli: três estátuas alamânicas atiradas ao lago, liberando "diaboli"), proibição de rituais no Indiculus Superstitionum de Teodulfo de Orleans (797), e reescrita narrativa pela lente cristã. O Heliand (séc. IX), épico saxão anônimo, reconta os Evangelhos com Cristo como druhtin (senhor tribal germânico, eco de Woden), os apóstolos como thegns (vassalos), e o Sermão da Montanha em um "monte alto" que era local comum de adoração a Woden e Thunaer, absorvendo mitologia pagã para torná-la palatável. Autores como George H. Ganter (Rebooting the Gospel for a Germanic Audience: The Case of Heliand, 2020), Ludger von Padberg (Die Christianisierung Europas im Mittelalter, 1998) e Yitzhak Hen (Charlemagne's Sacramentary and the Heliand, estudos carolíngios) documentam como essa sincretização forçada, euhemerismo (deuses como reis ancestrais) e demonização dupla (reais, mas malignos) desmantelavam a resistência pagã, convertendo povos sem apagar completamente suas cosmovisões

Old Saxon Baptismal Vow

Uma cópia fac-símile de 1895 do voto batismal

A simples existência do Old Saxon Baptismal Vow já desperta enorme interesse quando o tema é a demonização dos deuses germânicos. É um dos raríssimos documentos em que Woden, Thunaer e Seaxnot são mencionados nominalmente em um texto cristão, não como meras “superstições”, mas classificados de forma direta como demônios, colocados lado a lado com o próprio Diabo. Isso permite ver, quase “ao vivo”, a estratégia cristã de transformar antigas potências divinas em inimigos espirituais.

O Old Saxon Baptismal Vow (também chamado Utrecht Baptismal Vow) é um texto catequético em língua germânica (saxão antigo/baixo-alemão), datado em geral aos séculos VIII–IX. O documento sobreviveu em um manuscrito latino (Codex Palatinus latinus 577, hoje no Vaticano) ligado ao contexto franco-carolíngio, quando o Império de Carlos Magno e de seus sucessores conduzia campanhas de conversão e repressão contra os saxões pagãos. Trata-se de uma fórmula de perguntas e respostas usada no batismo: o sacerdote pergunta se o catecúmeno renuncia ao Diabo, à idolatria e às obras do Diabo, e se crê no Deus Pai, em Cristo e no Espírito Santo; o batizando responde em saxão antigo, na própria língua do povo que está sendo integrado à ordem cristã.​

Vejamos o quão interessante é o texto original, em inglês e em português seguindo a forma mais citada do voto, segundo as edições modernas. O texto é o seguinte:​

Original em saxão antigo (romanizado):

  1. Forsachistu diobolae?
    Respondeat: Ec forsacho diabolae.

  2. End allum diobolgelde?
    Respondeat: End ec forsacho allum diobolgeldae.

  3. End allum dioboles uuercum?
    Respondeat: End ec forsacho allum dioboles uuercum end uuordum,
    Thunaer ende Uoden ende Saxnote ende allum them unholdum, the hira genotas sint.

  4. Gelobistu in got alamehtigan fadaer?
    Respondeat: Ec gelobo in got alamehtigan fadaer.

  5. Gelobistu in Crist godes suno?
    Respondeat: Ec gelobo in Crist gotes suno.

  6. Gelobistu in halogan gast?
    Respondeat: Ec gelobo in halogan gast.​

Versão em inglês:

  1. Do you forsake the Devil?
    And (s)he should reply: I forsake the Devil.

  2. And all idolatry?
    (S)he should reply: And I forsake all idolatry.

  3. And all the Devil’s works?
    (S)he should reply: And I forsake all the Devil’s works and words,
    Thunaer and Woden and Seaxnot and all those devils who are their companions.

  4. Do you believe in God the almighty Father?
    (S)he should reply: I believe in God the almighty Father.

  5. Do you believe in Christ, God’s Son?
    (S)he should reply: I believe in Christ, God’s Son.

  6. Do you believe in the Holy Ghost?
    (S)he should reply: I believe in the Holy Ghost.​

Versão em português:

  1. Renuncias ao Diabo?
    E (ele/ela) deve responder: Eu renuncio ao diabo.

  2. E a toda idolatria?
    (Ele/ela) deve responder: E eu renuncio a toda idolatria.

  3. E a todas as obras do diabo?
    (Ele/ela) deve responder: E eu renuncio a todas as obras e palavras do diabo,
    Thunaer e Woden e Seaxnot e todos aqueles iníquos que são seus companheiros.

  4. Crês em Deus Todo-Poderoso, o Pai?
    (Ele/ela) deve responder: Eu creio em Deus Todo-Poderoso, o Pai.

  5. Crês em Cristo, Filho de Deus?
    (Ele/ela) deve responder: Eu creio em Cristo, Filho de Deus.

  6. Crês no Espírito Santo?
    (Ele/ela) deve responder: Eu creio no Espírito Santo.​

Percebe-se que o ponto crítico é o terceiro item: o texto não só manda renunciar ao Diabo de forma abstrata, mas associa explicitamente “todas as obras e palavras do Diabo” a Thunaer (Donar/Thor), Woden (Wodan/Odin) e Seaxnot, enquadrando-os como “unholdum”, uma categoria que pode ser lida como iníquos, espíritos malignos ou demônios.​

A presença dos nomes divinos germânicos neste voto não é acidental. Ela revela, ao mesmo tempo, o prestígio desses deuses entre os saxões e a dificuldade cristã em apagá-los apenas com proibições abstratas. Se bastasse dizer “renuncio a toda idolatria”, não seria necessário citar Thunaer, Woden e Seaxnot um por um. Ao nomeá-los e reclassificá-los como demônios, o texto funciona quase como um “exorcismo jurídico”: o indivíduo é obrigado a romper publicamente com os deuses do seu próprio povo.

Vários autores veem nesse tipo de fórmula um indício de resistência cultural profunda. Estudos sobre a cristianização dos povos germânicos, como os de Ian Wood (The Missionary Life, 2001) e Ludger von Padberg (Die Christianisierung Europas im Mittelalter, 1998), mostram que a simples pregação não era suficiente: era preciso atacar as redes de lealdade simbólica ligadas aos deuses, aos ancestrais e à ordem social. Ao transformar Woden e Thunaer e Seaxnot em aliados do Diabo, a Igreja não apenas “nega” esses deuses, mas reverte completamente seu valor: o que antes era honra, torna-se pecado; o que era fidelidade tribal, torna-se pacto demoníaco.​

Além disso, o fato de o voto estar em saxão antigo e não apenas em latim é revelador. Pesquisas sobre o Heliand e a pastoral carolíngia (por exemplo, George H. Ganter em Rebooting the Gospel for a Germanic Audience: The Case of Heliand, 2020) enfatizam que o uso da língua vernácula era uma arma dupla: por um lado, facilitava a compreensão do Evangelho; por outro, penetrava profundamente na mentalidade local, substituindo os antigos mitos por narrativas cristãs. No caso do Old Saxon Baptismal Vow, essa penetração se manifesta na própria liturgia: o momento de maior vulnerabilidade simbólica (o batismo) é usado para “reprogramar” a relação do indivíduo com o sagrado, forçando-o a dizer em sua própria língua que seus deuses são, na verdade, demônios.​

Esse tipo de estratégia também sugere que a religião cristã era percebida, pelos próprios germânicos, como algo alienígena em relação às suas tradições. O voto tenta, justamente, cortar o vínculo entre fé e identidade étnica: já não é “natural” nascer saxão e honrar Woden, Thunaer e Seaxnot; o “novo natural” é nascer (ou renascer) cristão e ver os antigos deuses como inimigos espirituais. A violência simbólica está em fazer o saxão dizer que o deus que protegia seu clã, seu rei e seus antepassados é agora um demônio sob comando do Diabo.

Por isso, o Old Saxon Baptismal Vow interessa tanto a pesquisadores e reconstrucionistas modernos: ele é, ao mesmo tempo, um documento de repressão e uma janela para a persistência da antiga fé. Ao tentar matar os deuses no plano discursivo, a Igreja acabou registrando seus nomes, seus vínculos e até a intensidade da devoção que precisava ser combatida.

Para além da prova viva da resistência pagã ante a imposição da fé cristã, o Old Saxon Baptismal Vow traz outros ganhos importantíssimos para a reconstrução da religião ancestral. O primeiro e mais evidente é a citação direta dos deuses em língua germânica, algo extremamente raro em documentos cristãos medievais, que geralmente se contentam com termos genéricos como “ídolos” ou “demônios”. Aqui temos Thunaer, Uoden e Saxnote grafados na ortografia saxã antiga do século VIII, com formas linguísticas precisas: Thunaer (do proto-germânico Þunaz, “trovão”), Uoden (Wōðanaz, “fúria possessória”) e Saxnote (Sahsnōt, “companheiro saxão”). Isso é ouro para filólogos e reconstrucionistas, pois confirma pronúncias, declinações e até grafias vernáculas que não sobrevivem em sagas islandesas posteriores.​

Adentrando nesses benefícios, o voto também atesta de forma clara a existência de uma tríade divina germânica continental, algo que ecoa em fontes díspares. Na Escandinávia, Adam de Bremen (séc. XI) descreve o templo de Uppsala com três estátuas principais: Thor no centro (protetor), ladeado por Odin (sabedoria/guerra) e Freyr (fertilidade), recebendo sacrifícios em rotação trienal (Gesta Hammaburgensis ecclesiae pontificum 26). Outras menções incluem a fíbula de Nordendorf (séc. VII), com a inscrição logathore wodan wigiþonar, e a tríade de ídolos de ferro na Vita Galli (séc. VII/VIII), destruídos por São Galo entre os alamanni. A Vita Galli também tenta demonizar os deuses germânicos e menciona explicitamente uma tríade, mas esse documento será explorado mais adiante.​

Outro tesouro é a menção a Seaxnot (ou Saxnote no voto saxão antigo), uma divindade obscura citada em apenas duas fontes primárias que preservam seu nome em contexto pagão: o próprio Old Saxon Baptismal Vow e as genealogias reais anglo-saxãs de Essex (séc. VIII-IX, preservadas em crônicas como o Textus Roffensis). Nas genealogias de Essex, Seaxnēat (Seaxnēt, Saxnēat ou Saxnat) aparece como ancestral primordial dos reis, sete gerações acima de Æscwine, o primeiro rei histórico: “Æscwine de Seaxnēate VII aetatibus” (“Æscwine, sete gerações de Seaxnēat”). Posteriormente, versões cristãs o subordinam como “filho de Woden”, integrando-o à rede odínica comum. Há debates acadêmicos sobre sua identidade: seria um deus patriarca dos saxões continentais (ligado à espada/seax e ancestralidade tribal), um kenning (nome poético) para Ingvi-Freyr (deus da fertilidade e linhagem real, Yngvi-Freyr) ou até Tyr/Þīwaz (deus da justiça e guerra)? Filólogos como Simek (Dictionary of Northern Mythology, 1993) e North (Heathen Gods in Old English Literature, 1997) inclinam-se para um deus local saxão, cuja raridade reforça a autenticidade do voto como testemunho de cultos periféricos apagados pela cristianização.

Além disso, o documento ilumina dinâmicas rituais: a renúncia tripartida (Diabo → idolatria → obras específicas dos deuses) espelha estruturas pagãs germânicas de votos e juramentos (gelubo, “promessa sagrada”), subvertidas para fins cristãos. Ele também confirma a persistência do politeísmo saxão após Carlos Magno, justificando repressões como o Capitulare de Villis. Para reconstrucionistas, esses detalhes permitem não só nomear os deuses corretamente em rituais modernos, mas reconstruir o pathos da conversão forçada como uma lição viva sobre resiliência cultural.

Vita Columbani

Início da Vita Columbani no manuscrito de Paris


A Vita Columbani (Vida de São Columbano), escrita por volta de 640-643 d.C. por Jonas de Bobbio, monge italiano da abadia fundada pelo próprio santo na Lombardia, é uma das hagiografias (escrita ou estudo da vida de santos católicos) missionárias mais influentes da Alta Idade Média. Ela narra a vida do irlandês Columbano (c. 543-615 d.C.), peregrino peregrinus, que deixou as ilhas celtas para evangelizar o continente europeu, fundando mosteiros como Luxeuil (Borgonha) e Bobbio (Itália). O texto foi encomendado por sucessores do santo para promover seu culto e justificar a expansão monástica irlandesa em território franco-merovíngio, numa época em que o paganismo persistia tenazmente entre povos germânicos como os alamanni (atual Suíça/Alemanha/Áustria).​

O episódio chave para nosso tema ocorre no capítulo 27, ambientado em Bregenz (c. 610 d.C.), às margens do Lago de Constança. Columbano encontra os alamanni prestes a oferecer cerveja em um grande vaso (cupa) ao seu deus “Vodanus, quem alii Mercurium vocant” (Vodanus, a quem outros chamam Mercúrio). O santo sopra no recipiente, que explode, derramando o líquido e revelando o “diabo escondido” (diabolum in vase latuisse).

A seguir está o texto original, em inglês e em português onde o episódio descrito ocorre:

Latim original (cap. 27, MGH SRM IV,1):
Cum quadam die per terras iter faceret, invenit eos gentilitatis sacrificium facere paratos: habebant enim vas grande, quod cupam vocant, viginti ferme modios capiens, cerevisia plenum, in medio positum. Cumque interrogaret ad quid hoc pararetur, responderunt se deo suo Vodano, quem alii Mercurium vocant, offerre velle. Quo audiens nefarium factum, insufflavit vas et ecce confractum ruit fragore maximo, ita ut omnis cerevisia efflueret. Tunc patuit diabolum in vase latuisse, qui per talem potum animas offerentium capere volebat.

Versão em inglês:
“As he was traveling through the lands one day, he found them prepared to perform a pagan sacrifice: they had a large vessel called a cupa, holding about twenty measures, full of beer, placed in the middle. When he asked what it was for, they replied that they wished to offer it to their god Vodanus (whom others call Mercury). Hearing this abominable deed, he blew on the vessel and behold, it shattered with a great crash, so that all the beer spilled out. Then it was clear that a devil had been hiding in the vessel, who wanted to capture the souls of the offerers through such a drink.”​

Versão em português:
“Certo dia, enquanto viajava pelas terras, encontrou-os prestes a realizar um sacrifício pagão: tinham um grande vaso, chamado cupa, com capacidade de cerca de vinte medidas, cheio de cerveja, colocado no meio. Perguntando para que servia, responderam que desejavam oferecê-lo ao seu deus Vodanus (a quem outros chamam Mercúrio). Ao ouvir esse ato nefasto, soprou no vaso e eis que ele se rompeu com estrondo, derramando toda a cerveja. Ficou claro que o diabo se escondia no vaso, querendo capturar as almas dos oferentes por meio dessa bebida.”​

O primeiro ponto que chama a atenção é a relação entre Vodanus (Wodan) com Mercúrio. Jonas não inventa essa correlação do nada: usa a interpretatio romana de Tácito (Germania 9), onde Mercúrio (Wodan) é o deus mais reverenciado pelos germânicos. Ao nomeá-lo, o hagiógrafo adota a mesma tática do Old Saxon Baptismal Vow: reconhecer a divindade para melhor demonizá-la. O milagre do sopro é polissêmico já que Columbano age como Wodan, senhor do ōðr (fôlego/fúria poética), mas vira o poder contra o falso deus. O diabo “escondido no vaso” literaliza  o Salmos 96:5 e o 1 Cor 10:20 (“os que pagãos sacrificam, aos demônios sacrificam”), transformando um ritual de hospitalidade germânica (cerveja como oferenda) em armadilha infernal.

Estudiosos como Bonnie Effros (Creating Community with Food and Drink in Merovingian Gaul, 2002) e Alexander Murray (Germanic Kinship Structure, 1983) interpretam isso como estratégia de “guerra espiritual assimétrica”: em vez de negar os deuses (o que reforçaria sua ausência), a hagiografia os afirma como reais, mas subordinados a Satã, justificando a superioridade milagrosa cristã. A intenção era dupla: para pagãos, demonstrar impotência dos deuses ancestrais; para cristãos neófitos, exorcizar dúvidas residuais. Como nota Ian Wood (The Missionary Life: Saints and the Evangelisation of Europe, 2001), tais narrativas “convertem o sagrado pagão em profano cristão”, pavimentando a transição cultural sem ruptura total. O texto de Jonas, circulando em mosteiros francos, ajudou a moldar a memória coletiva: Vodanus não desaparece, mas vira sinônimo de erro demoníaco.

Assim como já discutimos sobre o Old Saxon Baptismal Vow, a Vita Columbani nos entrega fragmentos preciosos para o estudo e entendimento da fé pagã ancestral, preservados ironicamente em uma narrativa hostil. Iniciando pela relação que Jonas de Bobbio estabelece entre Vodanus e Mercúri que é um achado de ouro para a mitologia comparada. Ambas as divindades compartilham regências profundas: psicopompos que guiam almas ao além (Mercúrio com caduceu, Wodan com lança e corvos); patronos da magia e êxtase (Hermes Trismegisto e seiðr odínico); mestres da palavra, escrita e poesia (Mercúrio inventor do lírio e caduceu, Wodan como deus da runen e galdr, “cantos mágicos”). Essa equivalência, ratificada por Jonas em 640 d.C., confirma que os cristãos viam em Vodanus/Wodan o mesmo arquétipo que os romanos projetavam em Mercúrio, enriquecendo nossa reconstrução de atributos pré-cristãos.​

Mas, sem dúvida, a maior contribuição desse texto é a descrição vívida de um ritual alamânico: os pagãos preparavam uma cupa (caldeirão ou barril) cheio de cerveja como oferenda a Vodanus, colocado no centro do espaço sagrado. Isso descreve claramente um blót germânico clássico (sacrifício líquido comunitário de hidromel ou cerveja, atestado em fontes como o Edda (Hávamál 141) e relatos escandinavos), mas aqui em contexto continental suabo do século VII. A cupa evoca vasilhas rituais arqueológicas como as de Tuttlingen (Alemanha), usadas em depósitos votivos. Além disso, atesta a devoção persistente a Wodan entre os alamanni, uma das tribos germânicas mais precocemente expostas ao cristianismo (desde o século IV, com influência romana, e intensificada por Columbano), onde cultos locais são hoje difíceis de rastrear fora de topônimos e achados esparsos.​

Estudiosos reforçam essas contribuições pagãs. Bonnie Effros (Creating Community with Food and Drink in Merovingian Gaul, 2002) destaca como o ritual da cerveja reflete laços sociais germânicos, subvertidos pela hagiografia para simbolizar “intoxicação demoníaca”. Stefan Brink (The Viking World, 2008) vê no blót alamânico um paralelo direto aos dísablót suecos, confirmando Wodan como receptor de libações em tríades familiares. Alexander Murray (Germanic Kinship Structure, 1983) argumenta que tais relatos hagiográficos, apesar do viés, preservam “fósseis vivos” de práticas pré-missionárias, permitindo reconstruir redes devocionais regionais. Para reconstrucionistas, isso não só valida oferendas líquidas modernas, mas humaniza os alamanni como povo devoto, cuja fé resistiu até o sopro (literal e simbólico) do santo irlandês.

Vita Galli

A Vita Galli (Vida de São Galo) é uma hagiografia que complementa a tradição de Columbano, focando em seu discípulo irlandês Galo (c. 550-646 d.C.), co-fundador de Luxeuil e pioneiro na evangelização da Suábia alamânica. O texto existe em duas camadas principais: uma versão inicial do século VII (atribuída a um contemporâneo, hoje fragmentária) e uma expansão do século IX por monges de São Galo (como Wetti de Reichenau e Walahfrid Strabo), escrita para legitimar o mosteiro de São Galo como centro espiritual da região do Lago de Constança. Composta numa área de transição entre paganismo residual e cristianização franca, a Vita narra como Galo, após a morte de Columbano, fixou-se na floresta alpina alamânica (612 d.C.), convertendo locais e santificando espaços pagãos.​

O episódio central ocorre quando Galo destrói três ídolos de ferro dourado (simulacra ferrea deaurata) num templo reocupado pelos pagãos, atirando-os ao lago. Demônios emergem como entidades específicas de montanha (Himilinberc, “monte celestial”) e lago, perseguidos por exorcismos do santo (caps. 6 e 12).

A seguir está o texto original, em inglês e em português onde o episódio descrito ocorre:

Latim original (cap. 6, edições padrão como Krusch):
Ibique tres simulacra ferrea deaurata colebant, quibus plus quam creatori mundi vota faciebant iuramentaque sollemnia. Quibus confractis et in profundum lacum proiectis, pars populi fidem suscepit, pars irata discessit.
(Cap. 12, vozes demoníacas: Voces quasi duarum mulierum ex monte Himilinberc audiebantur, plangentes mortem suorum et dicentes: "Quid faciemus? Ubi habitabimus? Propter peregrinum etiam inter homines habitare non possumus nec in solitudine.")​

Versão em inglês:
There they venerated three iron and gilded idols, to which they made more vows and solemn oaths than to the creator of the world. Having smashed them and thrown them into the depths of the lake, part of the people received the faith, part departed in anger.
(Chap. 12: Voices as of two women were heard from the Heaven-mountain Himilinberc, lamenting the death of their kind and saying: "What shall we do? Where shall we dwell? Because of the stranger we cannot dwell among men nor in the wilderness.")​

Versão em português:
Lá eles veneravam três ídolos de ferro dourado, aos quais faziam mais votos e juramentos solenes do que ao criador do mundo. Tendo-os despedaçado e lançado nas profundezas do lago, parte do povo recebeu a fé, parte partiu irada.
(Cap. 12: Vozes como de duas mulheres eram ouvidas do monte Himilinberc, lamentando a morte dos seus e dizendo: "O que faremos? Onde habitaremos? Por causa do estrangeiro não podemos habitar entre homens nem na solidão.")​


O lamento dos espíritos femininos descrito no Vita Galli, autor desconhecido


A tríade de ídolos sem nome, mas de material nobre (ferro dourado), evoca uma hierarquia divina alamânica (provavelmente Wodan, Donar e um terceiro deus/deusa), destruída fisicamente para simbolizar vitória escatológica. Os demônios resultantes (diaboli montis, do lago e she-devils aquáticas) personificam espíritos de lugar (landvættir), exorcizados em tríade espacial (floresta-lago-monte), espelhando a tríade ídola. Essa estratégia, mais elaborada que na Vita Columbani, usa topografia sagrada pagã contra si mesma: o Himilinberc (“monte do céu”) vira morada de entidades banidas.

Analistas como Jenny Jochem (Die Christianisierung der Alamannen, 2003) e Stefan Esders (Sacramentum et iudicium, 2010) veem nisso uma “teologia da territorialização”: santos irlandeses reclamam espaços pagãos via milagre, substituindo deuses locais por uma rede monástica. A intenção era dupla: para pagãos, provar falsidade dos ídolos (Dt 4:28); para elites francas, justificar colonização espiritual. Como nota Alexandra Herborn (Heidenmission und Kreuzzug, 1986), essas narrativas “demonizam sem erradicar”, preservando ecos pagãos para melhor controlá-los, moldando uma memória cristã que ainda sussurra os antigos nomes.

Assim como já discutimos sobre o Old Saxon Baptismal Vow e a Vita Columbani, o Vita Galli também nos entrega fragmentos preciosos para o estudo e entendimento da fé pagã ancestral, preservados no ato mesmo de sua condenação. Duas contribuições saltam aos olhos: a tríade divina alamânica e os espíritos/landvættir femininos, que emergem como entidades quase autônomas, lamentando sua expulsão.

A tríade de ídolos de ferro dourado (tres simulacra ferrea deaurata), descritos no cap. 6, não é mero detalhe narrativo. Esses três objetos sagrados, aos quais os alamanni dedicavam “mais votos e juramentos do que ao Criador”, representam quase certamente uma estrutura cultural germânica clássica: Wodan (Mercúrio, senhor da sabedoria e morte), Donar (Thor, protetor contra caos) e Ziu/Tiwaz (deus da justiça e aliança). A escolha do material – ferro (força guerreira) dourado (divindade solar) – e o fato de estarem num templo reocupado pelos pagãos reforçam que se tratava de um santuário central, possivelmente herdado de tradições romanas ou pré-romanas na região alpina. A destruição ritual (despedaçados e lançados ao lago) e a reação mista do povo (“parte converteu-se, parte partiu irada”) atestam não só a existência concreta dessa tríade, mas a tensão social da conversão.​

Ainda mais fascinante são as entidades femininas demonizadas no cap. 12: duas “she-devils” (diabolae in forma mulierum) aparecem nuas à beira do lago, insultando Galo e fugindo para o Himilinberc (“monte celestial”). De lá, suas vozes lamentam: “Por causa do estrangeiro, não podemos habitar entre homens nem na solidão”. Essas figuras evocam landvættir germânicas – espíritos femininos ligados a águas e montes, protetoras do território, comparáveis às dísir nórdicas ou às ninfas-suábias. O Himilinberc como refúgio sugere um halidom pré-existente, santuário natural onde essas entidades eram reverenciadas antes da chegada dos santos irlandeses. A hagiografia as transforma em “she-devils”, mas preserva sua agência: elas falam, sentem perda territorial e resistem à expulsão, oferecendo um vislumbre raro de cultos femininos alamânicos.​

Estudiosos reforçam o valor pagão dessas passagens. Jenny Jochem (Die Christianisierung der Alamannen, 2003) interpreta os três ídolos como reflexo de uma “trindade funcional germânica” (sabedoria-proteção-justiça), paralela à de Nordendorf e ao voto saxão, mas adaptada ao contexto suabo. Para os espíritos femininos, Stefan Brink (The Viking World, 2008) e Catharina Raudvere (Trolldómr in Early Medieval Scandinavia, 2011) veem ecos de dísablót e cultos às mães da terra: a Igreja demoniza-as como diabolae, mas o texto involuntariamente documenta sua persistência em crenças populares alpinas, onde “mulheres do lago” e “vozes da montanha” sobrevivem no folclore até o séc. XIX. Alexander Murray (Germanic Kinship Structure, 1983) destaca que a reação dividida do povo (“parte converteu-se, parte fugiu”) indica resistência ativa, com os ídolos representando laços comunitários mais fortes que a pregação solitária de Galo.

Para reconstrucionistas, o Vita Galli é um manual prático: ensina tríades locais, rituais de dedicação a espíritos territoriais e até topografia sagrada (lago-monte-floresta), permitindo rituais modernos que honram essas potências sem ignorar seu contexto histórico de confronto. O que a hagiografia quis apagar como “demônios”, acaba se revelando como o coração pulsante da religião alamânica.


Por que a demonização não “pegou” com Woden e Thunaer?

Quando se olha para o Old Saxon Baptismal Vow e para os episódios de Vodanus nas Vitae Columbani et Galli, fica claro que havia um projeto cristão consciente de colocar os deuses germânicos no mesmo “lugar teológico” de figuras como Baal e Moloch: potências rivais recodificadas como agentes do Diabo. No plano textual, tudo está ali. No voto saxão, Woden, Thunaer e Seaxnot são arrastados para dentro da fórmula de renúncia ao diabo, suas “obras e palavras” passam a ser tratadas como extensões da própria atuação demoníaca, e seus “companheiros” viram unholdum, espíritos iníquos a serem rejeitados no ato fundador da nova identidade cristã. Na Vita Columbani, o rito a Vodanus é desmontado não como simples erro humano, mas como cenário de um diabo literalmente escondido na oferenda, pronto para capturar almas através da bebida dedicada ao deus. Em Vita Galli, a tríade de ídolos alamânicos é despedaçada e lançada ao lago, de onde emergem vozes demoníacas banidas do convívio humano, dramatizando a expulsão das antigas potências locais.​

Ainda assim, ao contrário de Baal/Belzebu ou Moloch, nomes como Woden e Thunaer não entraram no imaginário cristão posterior como demônios “oficiais”. Em grimórios, sermões tardios e demonologias, Baal e Moloch reaparecem como espíritos infernais com hierarquia, selos e funções. Já Woden e Thunaer reaparecem, séculos depois, muito mais como figuras “mitológicas” ou “folclóricas” do que como demônios operacionais. Uma diferença importante está na escala e na continuidade do discurso: a Bíblia e a patrística fixaram Baal e Moloch desde cedo como arquétipos do inimigo de Javé, referências constantes em exortações morais. Já o material sobre deuses germânicos é regional, tardo-antigo e alto-medieval, ligado a campanhas específicas (saxões, alamanni), e não se tornou um repertório universal da cristandade. O Old Saxon Baptismal Vow circulou em um contexto relativamente limitado; as Vitae Columbani et Galli foram lidas em mosteiros ligados a essas missões, não em toda a igreja latina.​

Outro fator decisivo é a forma como a memória dos deuses germânicos é “salva” e reorganizada em ambientes já cristianizados. Enquanto Baal e Moloch seguem vivos quase exclusivamente como exemplos de idolatria abominável, Woden, Thunaer e seus pares são reintroduzidos em narrativas que, embora cristãs, não os tratam principalmente como demônios, e sim como personagens de um passado heróico ou poético. A própria Islândia medieval, já cristã, opta por registrar mitos em moldes literários, abrindo espaço para que Odin/Thor sejam lidos como “mitologia antiga” e não como demônios ativos. A hagiografia latina de Jonas e dos continuadores de Galo queria que Vodanus fosse lembrado como “erro demoníaco”; mas, para a posteridade letrada, esses textos acabam funcionando mais como documentos etnográficos involuntários: preservam um blót de cerveja, uma tríade de ídolos, vozes femininas demonizadas que cheiram a antigas vættir locais. Em outras palavras, a cristandade produziu, sem querer, material que a modernidade lê como janela para a religião germânica, não como dogma demonológico.​

O destino moderno dessas figuras também pesa. No romantismo, no nacionalismo alemão e escandinavo e depois no neopaganismo, os deuses germânicos foram resgatados como símbolos identitários, literários e religiosos alternativos. O Old Saxon Baptismal Vow e as Vitae Columbani/Galli deixaram de ser lidos apenas como triunfos do cristianismo e passaram a ser reinterpretados como provas da profundidade da antiga fé em textos que, ao tentar matar Woden e Thunaer como demônios, acabaram garantindo que seus nomes sobrevivessem para ser relembrados como deuses. Nesse sentido, a demonização “não pegou” completamente porque, diferentemente de Baal e Moloch, os deuses germânicos foram ancorados em outros discursos (filológicos, nacional-românticos, reconstrucionistas), que os arrancaram da categoria de “demônio” e os recolocaram no seu próprio panteão.

Esses deuses, na verdade, nunca foram completamente apagados do imaginário europeu. Mesmo sob a pressão da demonização cristã que aparece no Old Saxon Baptismal Vow e nas Vitae Columbani/Galli, Woden, Thunaer e outras potências germânicas “escaparam” por outras vias: foram incorporados ao mundo cristão, deslocados para camadas mais baixas da crença e mantidos vivos sobretudo pelo folclore. Enquanto a teologia oficial dizia “renuncio a Thunaer, Woden e Seaxnot como obras do diabo” e Jonas de Bobbio mostrava o diabo escondido no caldeirão oferecido a Vodanus, o povo continuava a lidar com tempestades, colheitas, presságios e lugares assombrados. Esses espaços simbólicos precisavam de agentes, e muitas vezes esses agentes eram versões popularizadas dos antigos deuses, rebaixados, fragmentados ou misturados com santos, mas ainda reconhecíveis.​

A pesquisa sobre religião popular e “sobrevivências” pagãs mostra bem esse fenômeno. Historiadores como Jacques Le Goff e Carlo Ginzburg apontam que o cristianismo medieval nunca conseguiu monopolizar por completo o imaginário do campesinato: crenças em espíritos da natureza, cavaleiros sobrenaturais e “senhores da caça selvagem” persistiram sob formas que lembram fortemente antigas funções de Woden/Odin. Em estudos sobre a “Wild Hunt” e a “cavalgada noturna”, Odin aparece metamorfoseado em líderes espectrais, às vezes fundido com figuras como o “Rei Artur” ou espíritos anônimos, mas raramente tratado pelo povo como demônio dogmático; é mais um senhor liminar entre vivos e mortos. O que textos como o Old Saxon Baptismal Vow tentam fazer é cortar esses laços na liturgia oficial; o folclore, porém, continua a circular histórias onde o antigo deus, mesmo desfigurado, não entra plenamente na categoria de “diabo”, e sim na de “espírito poderoso” ou “caçador fantasma”.​

Autoras como Catharina Raudvere (Trolldómr in Early Medieval Scandinavia) e trabalhos reunidos em coletâneas sobre crença popular nórdica mostram algo semelhante para Thor/Thunaer: o raio passa a ser associado ao “Deus cristão”, mas tradições de bodelagem, tochas, martelos simbólicos e proteção contra tempestades persistem em rituais camponeses até a Idade Moderna, muitas vezes camuflados sob nomes de santos ou simplesmente sem nome, como “força do trovão”. Em vez de um Thor demônio com chifres, o que se encontra nos relatos etnográficos são figuras como São Olaf, São Donato ou São Vito assumindo funções de controle do clima, cura e proteção – funções que antes pertenciam a deuses do trovão germânicos. O conteúdo funcional se conserva; o rótulo teológico muda.

Em suma, enquanto textos como o Old Saxon Baptismal Vow e a Vita Columbani registram o projeto oficial de transformar Woden e Thunaer em aliados do diabo, o folclore europeu atuou como contra-corrente silenciosa. Ele dissolveu os deuses em espíritos, caçadas, lendas, santos sincretizados e costumes agrícolas. Isso não os preservou intactos enquanto “deuses” no sentido teológico, mas os impediu de se fixarem na mesma categoria que Baal e Moloch assumiram na tradição cristã. Em vez de demônios de manual, os deuses germânicos seguiram vivos como personagens liminares do imaginário popular o suficiente para que, séculos depois, filólogos, historiadores e reconstrucionistas pudessem reconhecê-los, reagrupá-los e retirar da poeira aquilo que a demonização nunca conseguiu sepultar por completo.




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