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O Yule, o Halloween, a Roda do Ano, a Wicca e o Paganismo GermânicoO Yule, o Halloween, a Roda do Ano, a Wicca e o Paganismo Germânico

 





O Yule, o Halloween, a Roda do Ano, a Wicca e o Paganismo Germânico

Chega o mês de outubro, e com ele, aquela sensação quase mágica no ar: lojas repletas de abóboras, máscaras e enfeites sombrios, festas de Halloween pipocando em todo canto e uma animação que parece contagiar até quem nunca teve contato direto com as tradições anglo-saxônicas. Para quem aprecia o esoterismo, a espiritualidade ou a antiga senda pagã, esse período parece ainda mais especial não só pelo folclore, mas pela antiga ideia de que celebrações como Halloween guardam ecos remotos das festas dos povos europeus, muitas vezes associadas aos equinócios e solstícios.

Mesmo estando longe das culturas que originalmente celebravam o Dia das Bruxas, a celebração está cada vez mais presente no cotidiano brasileiro, impulsionada pela globalização e pela busca por rituais de reconexão espiritual. Junto com esse fenômeno, também cresce o conceito de que os antigos europeus celebravam uma “Roda do Ano”, um ciclo organizado de festas ligadas às mudanças das estações. Mas será que esta imagem corresponde realmente à prática histórica dos nossos ancestrais? De onde vem essa ideia tão popular sobre o calendário das celebrações pagãs?

Adicionando a isso, uma pergunta comum entre praticantes modernos de paganismo germânico é: afinal, existe uma “Roda do Ano” tradicional para nós? Quem olha rapidamente para o calendário ritual de organizações Ásatrú contemporâneas pode supor que sim: oito festivais bem distribuídos ao longo do ano, marcando solstícios, equinócios e pontos intermediários. Contudo, uma investigação mais histórica mostra outra realidade muito mais simples e ao mesmo tempo mais enraizada na cosmologia antiga dos povos germânicos.

O debate sobre a “Roda do Ano” vai muito além do universo pagão germânico ou nórdico. Trata-se de um tema que mexe profundamente com as comunidades esotéricas, ocultistas e espiritualistas em geral — que, arrisco dizer, constituem a maior parte dos leitores desta revista. É justamente pensando nesse público amplo e curioso que este artigo propõe desvendar as origens da “Roda do Ano” dentro da Wicca e analisar como esse conceito foi absorvido pelo imaginário coletivo, influenciando até quem não trilha necessariamente os caminhos da bruxaria ou do paganismo reconstrucionista.

Para isso, revisito brevemente o surgimento da Wicca no século XX, os contextos históricos e mágicos que permearam seu desenvolvimento, e de que maneira seus rituais (em especial o ciclo dos oito sabbats solares e lunares) foram reinterpretados e adotados por diversas linhas espiritualistas modernas. Com esta análise, será possível comparar o modelo da Roda do Ano popularizado pela Wicca com o calendário ancestral realmente praticado pelos povos germânicos fazer um comparativo entre a tradição histórica e a ideia contemporânea.

Ao trazer essas informações, a proposta é enriquecer o repertório da comunidade esotérica, ampliar o debate e, quem sabe, oferecer elementos práticos e reflexivos que possam ser integrados à jornada espiritual de cada um, seja qual for o caminho trilhado.

Vale destacar, desde já, que este artigo não pretende estabelecer um julgamento de mérito entre as tradições esotéricas da Wicca e as práticas pagãs ancestrais. Cada uma dessas manifestações espirituais possui seu próprio contexto histórico, cultural e funcional, oferecendo caminhos e significados distintos para seus praticantes. O objetivo aqui é, sobretudo, enriquecer o entendimento do leitor sobre o tema da “Roda do Ano”, ampliando a percepção acerca de suas origens, evoluções e influências, para que cada pessoa possa refletir com mais embasamento e consciência sobre o que escolhe celebrar e por que celebra. Em suma, trata-se de uma contribuição para um diálogo mais profundo e respeitoso entre passado e presente, tradição e reinvenção

A origem da “Roda do Ano”

De onde então vem essa ideia tão difundida entre neopagãos?

A chamada “Roda do Ano” é, em sua essência, um constructo do século XX. Gerald Gardner, fundador da Wicca, publicou em seus primeiros textos que sua tradição celebraria quatro festivais principais de origem céltica: Beltane (véspera de maio), Lughnasadh (véspera de agosto), Samhain (véspera de novembro) e Imbolc (véspera de fevereiro). Os nomes, evidentemente, são gaélicos (Gardner, Witchcraft Today, 1954). Mais tarde, um wiccano chamado Aidan Kelly, nos anos 1970, expandiu esse círculo, adicionando outros festivais ao calendário, entre eles nomes de origem germânica como Yule e Ostara. Logo depois, Doreen Valiente popularizou a simplificação desta roda, relacionando os oito festivais diretamente às estações do ano e aos solstícios e equinócios. Trata-se, portanto, de uma forma de sincretismo religioso moderno, reunindo elementos célticos, germânicos, anglo-saxões e até cristãos — basta lembrar que a Noite de Walpurgis (30 de abril/1º de maio), amplamente celebrada em círculos neopagãos modernos, deve seu nome a uma santa cristã.


Note que as festividades da Roda do Ano, propostas por Gerald Gardner e seus contemporâneos, possuem raízes em celebrações realmente antigas, ainda que a maneira como foram agrupadas e reinterpretadas não siga fielmente os registros históricos originais. É essencial evitar um olhar anacrônico ao avaliar essas contribuições: Gardner, assim como outros grandes nomes do ocultismo, agiu profundamente influenciado pelas limitações do seu tempo. Aleister Crowley, mago inglês com grande proximidade a Gardner, estruturou a Thelema fundindo mitologia egípcia a conceitos modernos, muitas vezes sem correspondência direta com a religião egípcia ancestral. Da mesma forma, Helena P. Blavatsky, referência no esoterismo global, mesclou elementos orientais com tradições ocidentais, criando sínteses que nem sempre se alinham com o que hoje sabemos sobre religiões orientais históricas.

Devemos lembrar que eles trabalharam numa época em que o acesso às fontes primárias era extremamente restrito. Muitos dos textos, traduções acadêmicas e dados arqueológicos que hoje estão à disposição sequer haviam sido descobertos ou interpretados corretamente. Portanto, apesar dessas obras apresentarem informações historicamente imprecisas, continuam sendo marcos fundamentais para o esoterismo, inspirando gerações e abrindo portas para novas perspectivas espirituais.

Não surpreende que, à medida que o paganismo germânico foi reorganizado no século XX, sobretudo através dos primeiros grupos Ásatrú nos EUA (AFA, The Troth) e na Escandinávia, essa estrutura importada da Wicca tenha se infiltrado e ganhado status de “tradição nórdica”. Mas é importante deixar claro: ela é uma criação moderna.

Os registros mais antigos

Três documentos medievais se tornaram essenciais nesse debate, justamente por apontarem quando os povos germânicos celebravam seus grandes festivais:

  • Beda, De Temporum Ratione (725), capítulo 15: O monge inglês descreve o calendário dos Anglos antes da cristianização, deixando claro que seus meses eram lunares, ajustados aos solstícios e ao ciclo das luas.

  • Einhard, Vita Karoli Magni (c. 830): A biografia de Carlos Magno narra práticas festivas germânicas, também marcadas após eventos astronômicos, não exatamente no dia dos solstícios ou equinócios.

  • Calendário da Althing islandesa (c. 930): Este calendário legislativo revela que a estrutura anual islandesa medieval organizava datas festivas após as grandes mudanças sazonais, e não sobre elas.

Ou seja: ao contrário da famosa “roda do ano” que aparece em livros de Wicca e neopaganismo, as festas germânicas históricas não eram celebradas no exato momento dos solstícios ou equinócios, mas depois, de acordo com o ciclo das luas.

Quais eram os festivais germânicos?

Do ponto de vista histórico, as sagas e crônicas apontam para três grandes festivais:

  • Haustblót / Dísablót / Noites de Inverno: celebrado no início do inverno, aproximadamente entre final de outubro e começo de novembro nas antigas fontes, mas ajustado hoje entre abril e maio no hemisfério sul. Era o verdadeiro “ano-novo” de todos os povos germânicos. (Ynglinga Saga, cap. 8)

  • Yule (Jól): celebrado na primeira lua cheia após a primeira lua nova que seguia o solstício de inverno. Originalmente, durava três noites, associadas ao meio do inverno (Saga de Hákon, o Bom, cap. 17).

  • Sigurblót (Blót da vitória): celebrado três luas cheias após o Yule, com destaque em abril/maio no calendário nórdico. (Saga de Óláf Helga, cap. 76).

Ou seja: três festivais principais de caráter agrícola, militar e comunitário.

O caso do Yule

Talvez nenhuma festa seja tão mal compreendida quanto o Yule. Hoje, é comum vê-lo associado diretamente ao solstício de inverno (21 de dezembro no hemisfério norte). Isso ocorre por duas razões:

  1. A influência wiccana, que fixou solstícios como datas sacrais absolutas.

  2. A reforma do rei Hákon, o Bom (séc. X), que transferiu a celebração do Yule para coincidir com o Natal cristão. Snorri Sturluson descreve:
    “Antes dele, a primeira noite de Yule ocorria na hökunótt, em pleno meio do inverno, e era celebrado por três noites” (Saga de Hákon o Bom, cap. 17).

Fontes adicionais como Thietmar de Merseburgo (Chronicon, IV, 9) descrevem grandes sacrifícios no meio do inverno, realizados em Lejre a cada nove anos, reforçando a noção de que o Yule não era “o solstício”, mas um festival lunar que dependia das primeiras luas após o solstício.

Beda também registrou que o calendário anglo-saxão marcava o “mês de Jól” apenas após o solstício de inverno (De Temporum Ratione, cap. 15).

Como o tempo era contado?

Aqui entra um ponto essencial para compreender a diferença entre nossos calendários modernos e o germânico:

  • O tempo era medido pela lua cheia e pela lua nova, não por semanas fixas.

  • O termo “month” em inglês vem do inglês antigo mōnaþ, literalmente “ciclo da lua”. Em alemão, a palavra é Monat, de mesma raiz. Isso mostra que o ciclo lunar era o marcador fundamental do tempo.

  • O solstício tinha função técnica: corrigir e sincronizar o calendário lunar com o ano solar, garantindo que as colheitas e rituais mantivessem sua correspondência sazonal.

Portanto, quando falamos de Yule, falamos de um festival lunar: começava na primeira lua cheia após a primeira lua nova que seguia o solstício de inverno. Ele não dependia do dia exato do solstício, mas da dança entre sol e lua.

Halloween, Walpurgisnacht e a Caçada Selvagem


Começamos este artigo explorando o Halloween, e é apropriado encerrarmos voltando a ele. Você deve estar se perguntando: afinal, ao retirarmos toda a camada moderna da Wicca e do neopaganismo, existiu alguma festividade genuinamente germânica que se assemelhasse ao Dia das Bruxas? No paganismo germânico, não existe um "Dia das Bruxas" como o Halloween moderno, que tem raízes principalmente celtas no festival de Samhain. Em vez disso, tradições germânicas evocam a Caçada Selvagem (Wilde Jagd ou Wild Hunt), uma procissão espectral liderada por Odin/Wotan, com almas dos mortos, cães infernais e espíritos, vista como presságio de morte ou fim de ciclo – temas próximos ao véu entre mundos do Halloween, mas sem data fixa outonal.

A festa mais próxima que temos hoje é a Walpurgisnacht (Noite de Walpurgis), celebrada de 30 de abril a 1º de maio, marcando o início da primavera e o "verão" germânico. Fogos são acesos para repelir bruxas e demônios que voam para o Blocksberg (montanha sagrada), danças noturnas protegem contra o sobrenatural, e o folclore descreve um "exército furioso" (wütendes Heer) similar à Caçada Selvagem. Essa festividade acontece em honra de Santa Walburga (abadessa anglo-saxã do século VIII, canonizada em 870), cuja festa coincide com ritos pagãos pré-existentes, a Walpurgisnacht fundiu-se ao legado germânico. Hoje, em regiões da Alemanha como Harz e Baviera, mantém-se como Hexennacht (Noite das Bruxas), com fogueiras, desfiles e crenças em espíritos sendo uma "segunda Halloween" germânica, mas primaveril. Jacob Grimm (Teutonic Mythology, 1835/1888) liga Walpurgisnacht à Caçada Selvagem de Wotan e sacrifícios em colinas antigas, interpretando "wütendes Heer" como "Heer de Wotan". Já Otto Höfler (Verwandlungskulte, 1934) vê relatos medievais da Caçada como procissões rituais germânicas de ancestrais, preservadas no folclore.

A Santa Walpurga (c. 710-779), missionária anglo-saxã e sobrinha de São Bonifácio, "Apostolo dos Germanos", viajou em 748 para a Germânia (Baviera e Franconia) a pedido do tio para auxiliar na conversão forçada de pagãos saxões e francos, fundando o mosteiro duplo de Heidenheim em 752 (após Bonifácio derrubar árvores sagradas como o Caravalho de Donar) onde atuou como abadessa, educando convertidos, realizando "milagres" contra demônios pagãos (como curas e luzes divinas) e suprimindo cultos ancestrais, conforme narrado na Vita Waldburgis de monja contemporânea Hugeburc de Heidenheim (c. 778) e estudos como The Problem of Female Sanctity in Carolingian Europe de Jinty Nelson (Past & Present, 1995), que analisam seu papel na hagiografia carolíngia como ferramenta de romanização eclesial; sua canonização em 870 (1º maio) sobrepôs-se intencionalmente a ritos pagãos de primavera, tornando irônico e problemático para reconstrucionistas germânicos celebrá-la como festa pagã, pois ela simboliza a erradicação deliberada do politeísmo nativo. Portanto, não faz sentido transformar esse “Halloween” germânico em uma festa pagã, já que celebra uma santa que ativamente atuou contra o paganismo em seu tempo.

Conclusão

A famosa “Roda do Ano” pode ter sentido dentro de tradições neopagãs modernas, mas não existia no paganismo germânico histórico. Nossos ancestrais celebravam um ciclo mais simples, mas profundamente conectado à lua e à fertilidade da terra: três grandes festivais que marcavam o inverno, o Yule e a vitória da primavera.

Estudar as fontes medievais nos ajuda a desfazer confusões modernas e resgatar uma vivência mais fiel e orgânica da espiritualidade germânica.


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